"Certa vez, Noci me contou do vazio da sua relação com
Aproximado. Como o namoro, com o tempo, se tinha vazado. Distintos que parecessem os nossos trajectos,
nós pisávamos as mesmas pegadas. Eu saíra da minha terra para procurar um homem
que me traía. Ela traía-se a si mesma com alguém que não amava.
-- Por que aceitamos tanto? – questionou Noci.
-- Quem?
-- Nós, mulheres. Por que aceitamos tanto, tudo?
-- Porque temos medo.
O nosso
maior medo é o da solidão. Uma mulher não pode existir sozinha, sob o risco de
deixar de ser mulher. Ou se converte, para tranquilidade de todos, numa outra
coisa: numa louca, numa velha, numa feiticeira. Ou, como diria Silvestre, numa
puta. Tudo menos mulher. Foi isto que eu disse a Noci: neste mundo só somos
alguém se formos esposa. É o que agora sou, mesmo sendo viúva. Sou a esposa de
um morto."
Mia Couto, Antes de nascer o mundo
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